domingo, 30 de janeiro de 2011

Rapidocracia


Frequentemente nos deparamos com a velocidade com que a vida moderna se apresenta aos nossos olhos saudosistas. Ficamos em alerta com o timming das coisas cotidianas, dentre estas: a alimentação ao lazer, mas, sobretudo, no meio empresarial.

Enquanto colaboradores de organizações, ainda sim, existiria em nós um movimento de consternação quanto ao grau de exigência das respostas profissionais, nem tanto assim, se fosse esse grau exigido em tempo mais do que hábil de execução. Onde seria o ponto de comodidade?

Quando não muito, a globalização nos tenham levado a todos para um estado de eterna “Fórmula 1 empresarial”, em que cada milésimo de segundo conta e importa. Com isso, devemos considerar que os adventos do email e do celular romperam de vez com a longeva CLT aqui no Brasil, transformando as relações de trabalho em distantes, assíncronas e constantes. Há quem diga que considera normal uma jornada de trabalho de 10 horas. Para mim 12 horas são companheiras semanais, por livre escolha.

Mas devemos trazer essa discussão para o meio empresarial efetivamente, onde emana essa força motriz de tempo é dinheiro. Há muito questionamos a velocidade da execução de projetos em cronogramas ajustáveis. Procrastinação, uma palavra proibida e a ditadura do “e” (COLLINS; PORRAS, 1991) que se transforma em objeto de fascinação para grandes grupos empresariais.

Sobre esse foco, devemos alertar sobre algumas regras sutis da física, ainda que clássica. Dentre essas, tem-se que: a distância é igual velocidade vezes o tempo. Nesse registro de uma fórmula básica, que nos representa aonde queremos estar, quanto tempo devemos empreender e em qual velocidade devemos andar. Contudo, essa velocidade normalmente é definida externamente. Apenas na matriz SWOT as ameaças de outras equipes passam a ser consideradas, porque se dependesse apenas de nossas organizações o tempo de execução seria pra lá de bimestral, coisa assim.

Quando os japoneses menosprezaram o que as curvas de experiência do setor automotivo sugeriam, no final do século passado, caiu por terra o que o meio empresarial definia como exeqüível. As empresas norte americanas registraram uma crise em seu mercado doméstico, frente a um inimigo poderoso e ágil como um ninja vindo do oriente. (Hamel;Prahalad, 1989).

Dentro de um sistema empresarial aberto, normalmente indicado como setor, deve-se apresentar uma outra indicação física: o ponto de referência. Como identificar que um outro corpo está em movimento e ao mesmo tempo indicar sua velocidade? Precisamos de um referencial comum, pois se utilizarmos outro corpo em deslocamento, essa percepção cairia por terra. Se estamos a 80Km/h e outro veículo nos ultrapassa a 100Km/h nossa percepção nos leva a crer que ele apenas estava devagar em seus 20Km/h que é a diferença percebida entre as duas velocidades.
Sobre isso devemos alertar, não são outras empresas que são agressivas, ou mesmo ágeis. Somos nós que estamos devagar demais no mercado. Estamos na era da Rapidogracia.

Marketing ou Mercadologia?

Em recente evento realizado pelo CRA MG, III Encontro Mineiro de Professores de Marketing, esse tema foi abordado numa palestra proferida por mim. A necessidade principal do mesmo, para professores e demais profissionais presentes, era despertar a atenção da dependência direta que essa ciência possui em relação a autores, obras, pesquisas e demais teorias de apoio oriundas dos EUA e de uma conseqüente necessidade de abrasileirar tais conceitos e temas.

Indicamos que realmente esse vínculo de dependência não poderia ser imediatamente cortado, devido a um contexto econômico construído desde o século XIX pela Inglaterra e mantido com a hegemonia dos EUA na economia. Contudo, foi apresentado nesse evento, um painel sobre a nossa xenofilia que nos leva a cometer diversos anglicanismos dentro do nosso linguajar cotidiano e corporativo.

Somos aficionados pelo idioma inglês, sem mesmo saber do que se trata. Preferimos “performance”, à palavra “desempenho”. Ou quando a sigla inglesa TQC, foi traduzida, cometeu-se o superlativo conceitual inconsistente em dizer: controle da qualidade total, quando deveríamos dizer, controle total da qualidade. Não pronunciamos o “H” das palavras, mas somos convidados a dizer Hershey´s com sotaque novaiorquino, pronunciando efetivamente o H como R. Mas não fazemos isso com hamburger, que não foi traduzido como hamburguês, que é efetivamente o que está grafado. Tente agora dizer o plural de hambúrguer...

Essa miopia lingüística perpassa a criação de produtos aqui no Brasil já que os produtos possuem seu valor agregado quando nomeados com palavras inglesas. Vende-se no mercado de mídia, o famoso e útil “bus door”, em sua correta tradução “porta de ônibus”.

Ainda sim, essa dificuldade com o idioma inglês está refletida nos conceitos de mercado. A seguinte frase, absolutamente correta do ponto de vista teórico: “uma verticalização para frente” soa de forma estranha. Sendo um movimento vertical, deveria guardar a orientação de para cima ou para baixo, não é mesmo? Mas graças a uma péssima tradução de down stream, ficamos com essa aberração.

Finalizando, indico um despropósito do ensino de segmentação por critérios etnográficos.(e não a etnografia em si) Em países anglicanos esse conceito faz sentido. No Brasil, de Gilberto Freyre, parece que não. Quando algumas empresas em sua ficha cadastral insistem em perguntar “cor”, deixo claro que: de manhã sou amarelo, no inverno branco, de tarde vermelho e no verão sou preto.